As ariranhas estão voltando à Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã

Ariranha vista no primeiro semestre de 2015. Foto: André Coelho

Animais praticamente desapareceram, perseguidos devido à pele, mas hoje a população está se expandindo nesta reserva no interior do Amazonas.

Vandré Fonseca

Imagens em sequência de uma armadilha fotográfica mostram, primeiro, uma ariranha (Pteronura brasiliensis) adulta saindo da toca, em seguida aparecem dois filhotes. A toca é bastante movimentada e por ali passam ainda outros adultos. Os animais foram fotografados durante o monitoramento realizado pelo biólogo André Giovanni Coelho, do Instituto Mamirauá, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Amanã, interior do Amazonas, distante 650 quilômetros da capital do estado.

Coelho começou o levantamento populacional da espécie em Amanã há pouco tempo, trabalha desde novembro. Mas as observações e registros que fez já comprovam um comportamento que já havia sido percebido por outros pesquisadores no início dos anos 2000: as ariranhas estão voltando, elas que andavam sumidas da reserva desde o final da década de 1960 e início da década de 1970, quando ainda eram caçadas para virar casaco de pele.

“Pescadores nem conhecem mais a ariranha”, conta André Coelho. “Os pais e avôs deles caçavam e diziam que a pele era valorizada, mas eles mesmo não conheciam. São pessoas na casa dos 30 anos”.

Armadilhas fotográficas são utilizadas para colaborar com o registro de ariranhas. Foto: Amanda Lelis

Além de imagens das armadilhas fotográficas, Coelho fez também um vídeo de um grupo de ariranhas na beira de um rio. Por enquanto, imagens e observação são os instrumentos utilizados para encontrar os bichos na floresta, mas dentro de alguns meses, quando a região estiver seca, os pesquisadores pretendem acompanhar os animais por telemetria.

Nesses primeiros meses de trabalho foram encontrados oito novos grupos de animais. Foram registrados também grupos em três igarapés onde pesquisadores já haviam estado, entre 2004 e 2008, sem nunca terem avistado um animal da espécie por ali. De acordo com o pesquisador, hoje já existem ariranhas em quase todos principais igarapés que desaguam no Lago de Amanã. Para André Coelho, esses novos registros demonstram que a população da espécie continua a crescer.

Dados dos grupos de animais encontrados são registrados, como tamanho do grupo, quantidade de machos e fêmeas, filhotes, entre outras informações. Foto: Amanda Lelis

Amanã é uma reserva estadual, que cobre 2,35 milhões de hectares, maior que o estado de Sergipe. Ela fica entre o Parque Nacional do Jaú e a Reserva de Desenvolvimento Sustentável de Mamirauá. Com áreas de várzea, que alagam durante boa parte do ano, e também de terra firme, possui ambientes adequados para a ariranha.

A ariranha se destaca em relação a outras espécies de lontras. Ela é maior do que a parente encontrada desde o Uruguai até o México, a lontra-neotropical (Lontra longicaudis). Por isso é chamada também de “lontra-gigante”. O macho pode chegar a 1,8 metros de comprimento e pesar mais de 40 quilos, enquanto a lontra-neotropical não chega a 1,4 metros.

Outra diferença em relação a outras espécies da mesma família é que a ariranha vive em grupos que podem chegar a 16 indivíduos, enquanto outras lontras são mais solitárias. Pesquisas demonstraram que as ariranhas desenvolveram também um repertório de vocalizações, que serve para a interação do grupo.

É um animal territorialista, que se agita bastante quando estranhos se aproximam. Na lista da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN, em inglês), ela aparece como espécie ameaçada. Na lista nacional, é considerada vulnerável. Uma das preocupações é quanto a possibilidade de uma população crescente de ariranhas provocar problemas com comunidades ribeirinhas, que buscam os mesmos peixes.

Grupo de ariranhas visto do primeiro semestre de 2015. Foto: André Coelho

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